Prezadas pacientes e colegas,
A ascensão dos agonistas dos receptores GLP-1 e GIP/GLP-1, como a semaglutida (Ozempic) e a tirzepatida (Mounjaro), revolucionou o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. No entanto, o uso desses medicamentos em condições ginecológicas prevalentes, como a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) e a endometriose, exige uma análise clínica rigorosa e baseada em evidências.
Como ginecologista, meu papel é fornecer informações precisas sobre as indicações, os riscos e a necessidade de um acompanhamento reprodutivo especializado ao considerar essa classe de medicamentos. Para colegas, a Estratégias para o Ginecologista na Prescrição de Medicamentos Antiobesidade pode ser útil.
1. SOP: Onde a Evidência é Mais Forte
A SOP é uma endocrinopatia complexa, frequentemente impulsionada pela resistência à insulina e pelo hiperandrogenismo. É nesse cenário metabólico que os agonistas GLP-1/GIP demonstram seu maior potencial terapêutico.
A literatura científica atual sugere que esses medicamentos podem ser uma ferramenta valiosa no manejo da SOP, especialmente em pacientes com sobrepeso ou obesidade. O mecanismo de ação, que inclui a melhora da sensibilidade à insulina e a significativa perda de peso, resulta em benefícios reprodutivos notáveis:
- Melhora do Perfil Metabólico: A redução da resistência à insulina é central, auxiliando no controle glicêmico e lipídico.
- Restauração da Função Ovariana: A perda de peso e a melhora metabólica frequentemente levam à regularização dos ciclos menstruais e à restauração da ovulação, um fator crucial para pacientes com infertilidade anovulatória.
É fundamental ressaltar que o uso para SOP é off-label. Embora existam diversos ensaios clínicos em andamento (NCT03919929, NCT05819853) que buscam a aprovação formal, a prescrição atual deve ser feita com base em uma avaliação clínica criteriosa e no consenso entre o ginecologista e o endocrinologista.
2. Endometriose: Cautela e Ausência de Indicação Direta
A endometriose é uma doença inflamatória crônica. Diferentemente da SOP, a fisiopatologia da endometriose não está primariamente ligada à obesidade ou à resistência à insulina na maioria dos casos.
Atenção Clínica:
- Evidência Insuficiente: Não há estudos clínicos robustos que suportem o uso de agonistas GLP-1/GIP como tratamento direto para a endometriose. O papel potencial é meramente indireto, focado no manejo de comorbidades metabólicas que possam coexistir.
- Risco de Sintomas Gastrointestinais: Os efeitos colaterais gastrointestinais (náuseas, vômitos, diarreia) são comuns com essa classe de medicamentos. Em pacientes com endometriose, que frequentemente já apresentam sintomas intestinais (disquesia, dor abdominal), o uso pode levar à exacerbação do quadro e à piora da qualidade de vida.
Portanto, como ginecologistas, devemos orientar que esses medicamentos não substituem as terapias estabelecidas para a endometriose e não devem ser prescritos com o objetivo primário de tratar a doença, mas sim, como parte de uma estratégia em vista da resistência insulínica e diminuição da inflamação crônica.
3. A Confluência SOP e Endometriose: O Desafio da Individualização
Quando uma paciente apresenta ambas as condições, a decisão terapêutica se torna um exercício de individualização.
A ausência de estudos específicos para a comorbidade exige que o clínico pondere os benefícios metabólicos e reprodutivos claros para a SOP contra a falta de evidência e o risco de efeitos adversos gastrointestinais na endometriose. A abordagem deve ser multidisciplinar, envolvendo o ginecologista, o endocrinologista e, se necessário, o especialista em dor pélvica.
4. Considerações Reprodutivas e Contraceptivas Essenciais
O aspecto mais crítico no uso de agonistas GLP-1/GIP em mulheres em idade reprodutiva é a segurança gestacional e o risco de gravidez não planejada.
Risco de Gravidez Não Planejada
A melhora da ovulação em pacientes com SOP e obesidade é um efeito colateral positivo, mas que exige vigilância. Há relatos de aumento de gestações não planejadas (“bebês Ozempic”). As Implicações do GLP-1 RA na Fisiologia Reprodutiva e SOP devem ser consideradas.
Contraindicação Absoluta na Gestação
- Nenhum agonista GLP-1/GIP é aprovado para uso durante a gravidez.
- A recomendação é a interrupção do tratamento antes da concepção. Para a semaglutida, a interrupção deve ocorrer pelo menos dois meses antes de tentar engravidar. Para a tirzepatida, a orientação de washout é menos clara, mas a cautela é mandatória.
Interação com Contraceptivos
- Semaglutida (Ozempic): Não há evidência de que afete a eficácia dos contraceptivos orais.
- Tirzepatida (Mounjaro): Pode reduzir a absorção de contraceptivos orais. Além disso, os efeitos colaterais gastrointestinais (vômitos/diarreia) podem comprometer a absorção de qualquer pílula.
Recomendação Ginecológica: Pacientes que precisem espaçar a gestação por algum motivo recomenda-se que utilizem os métodos naturais para tal
Conclusão Clínica
Os agonistas GLP-1/GIP representam um avanço promissor no manejo das comorbidades metabólicas da SOP. No entanto, sua aplicação na endometriose é, no momento, limitada e indireta. A decisão de prescrever deve ser informada, individualizada e acompanhada de um rigoroso aconselhamento.
Este artigo visa informar e não substitui a consulta médica. Agende sua consulta para uma avaliação completa.
Referências Selecionadas
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- Varughese, M. S., et al. (2025). GLP-1 receptor agonist therapy and pregnancy. The Obstetrician & Gynaecologist.